08 Maio 2007

Mulher e Futebol IV

Ele acorda todo empolgado naquele domingo. Dia de jogo importante na tevê. Tomara que ela não invente nada pra fazer, não queria sair. Achou melhor conferir.


- Mozinho, hoje tem jogo.

- Tô sabendo. Botafogo e Cabofriense, né?

- É. Você quer ver?

- Claro. É pra final, né?

- É a semifinal.

- Foi o que eu perguntei. É pra decidir quem vai jogar na final.

- O vencedor vai jogar com meu Mengão.

- Tá bom. Vamos ver sim.

- Você vai torcer pra quem?

Ela pára e pensa um pouco.

- Botafogo.

- Ué, não vai torcer pelo time mais fraco dessa vez?

- Não. Vou torcer pelo Botafogo.

........

Começa o jogo.

Ela: - Mozinho?...

- Que foi, meu bem?

- Como é que vou saber qual é o Botafogo? Os dois estão de branco...

Ele pensa antes de responder. O jogo ainda nem começara, resolveu ser paciente.

- O Botafogo é o da camisa listrada. Ali ó! Viu? Aquele era do Botafogo. Esse que tá na tela agora é do Cabofriense.

- Você tá torcendo pra quem?

- Pro Cabofriense.

- Prefere ver seu Flamengo perder pro Cabofriense?

- Quem disse que o meu Mengão vai perder?

Silencio entre os dois. Daqui a pouco ela dá um grito:

- Aí! Agarra!

- Mozinho, você não está torcendo pro Botafogo? Esse aí é o goleiro do Cabofriense.

- Tô torcendo pro Botafogo mas esse goleiro do Cabofriense tá agarrando muito. Não quero que ele tome gol.

- Se ele não tomar gol, o Botafogo perde. Você sabe disso, né?

- Sei. Pode acabar em empate.

- Ah tá.

- Se acabar em empate, vamos pros pênaltis? - ela quer saber.

- Ainda não. Tem outro jogo entre eles.

- Então eles podem empatar hoje e o menino do Cabofriense não toma gol. Vou torcer pro empate.

Botafogo faz um gol. Ela sussurra:

- Huuumm...

Cabofriense empata. Ela repete:

- Huuumm...

Ele não aguenta:

- Não tô te entendendo...

- Que foi agora, mozinho?

- Botafogo fez gol e você faz “hum” esquisito. Cabofriense empata e você solta o mesmo “hum”?

- Fiz “hum” porque o Botafogo fez gol, ué. Não gostei do goleirinho tomar gol.

- E no gol do Cabofriense, porque o “hum”?

- Porque eu não queria que o Botafogo sofresse gol, oras!

Ele resolve ficar quieto. Não consegue, logo vem ela de novo:

- Mozinho?...

- Quê?

- Sabe de uma coisa que estou notando?

- Não, você ainda não me disse - responde ele, já meio impaciente.

- Esse campeonato carioca foi o campeonato dos goleiros.

- Como assim?

- Geralmente a gente escuta falarem dos atacantes ou de outro jogador qualquer que tenha feito gol.

- Ainda não peguei teu raciocínio.

- Esse ano os goleiros estão melhores. Lembro quando a bola ia para um lado e os goleiros se jogavam pro outro. Até guardei alguns nomes desse campeonato: Eduardo do America; Julio Cesar do Botafogo, Alcimar do Madureira e esse aí do Cabofriense que é o Gatti, não é?

- É mas acho que essa coisa toda em cima dos goleiros deve ser por causa do gol mil do Romário.

- Você acha que ele ainda vai agüentar ficar em pé até fazer o gol mil?

Ele riu.

- Que maldade, mozinho.

- Ué. Mas você não viu como ele estava no jogo contra o Botafogo?

- O Eurico Miranda vai ficar com ele até ele fazer o gol mil.

- Não vai demorar muito pro Eurico começar a espalhar que tem times interessados na compra do Romário.

- Porque você acha que o Eurico vai fazer isso?

- Ele vai ter que valorizar o jogador pra poder mantê-lo no Vasco. Até onde eu sei, os vascaínos não estão muito satisfeitos de jogarem com dez jogadores em campo. Romário não ajuda em nada os companheiros, já notou?

- Ele tá só esperando o mil pra se aposentar, né?

Na tevê, uma série de ataques do Botafogo. Ela, meio revoltada:

- Esse Cabofriense joga mal pra caramba! Como conseguiram chegar à semifinal?

- É, hoje não estão jogando nada, estão jogando como time pequeno.

- E o Botafogo tá jogando como quem tá desesperado. Chutam de qualquer jeito, não acertam o gol.

- Mas você não disse que não queria que o goleirinho tomasse gol?

- Mas o Botafogo só tá fazendo o menino correr pra lá e pra cá, ele nem tá precisando agarrar nada.

- Pronto. Você foi falar, saiu mais um do Botafogo.

- Cabofriense ainda vai empatar.

- Sei não. O Botafogo tá atacando muito.

- Mas está cada vez mais desesperado. Espere que o Cabofriense vai empatar.

- Eu não disse? Agora não sai mais nada nesse jogo. Vou fazer um café pra gente lanchar depois.

Conforme ela previra, não saíram gols nem outros lances importantes na partida. Ele se levanta e vai à cozinha falando sozinho:

- Mulher não entende nada de futebol!

13 Fevereiro 2007

Realidade

Tem horas que me sinto tão desumana por não saber o que e como fazer pra mudar a situação em que se encontra o Rio de Janeiro e o país.

Já votei certo, já votei consciente, já votei de qualquer jeito, já votei por votar, já votei por obrigação, já anulei voto, já votei em branco, já deixei de comparecer à eleição de propósito.

Cobro de nossos políticos explicações e atitudes.

Tento manter-me informada, mesmo que superficialmente, com o que acontece no mundo.

Educo meus filhos sob as regras do bom caráter e com noções de comunidade e sociedade. Mostro com exemplos, sempre que posso, as conseqüências de agir certo e errado.

Por acreditar ser esta uma obrigação de todos nós, cultuo a educação e a cultura da maneira que posso, cultivo atitudes que me parecem a correta, repasso o que aprendo, tento ajustar as coisas ao meu redor.

Chega um momento que me assusto tentando decidir afinal, o que é o certo neste mundo perdido?

Vejo um marketing formando pessoas individualistas, pregando o "se dar bem" a qualquer preço.

Vejo as pessoas grudadas em novelas que fazem do mau caráter, um exemplo de postura a ser seguido.

Vejo que o dinheiro tornou-se mais importante que a sensatez, a prudência, a responsabilidade e a justiça.

Vejo que as graves desigualdades sociais são encaradas como normal e, por vezes, chego a ouvir que é um mal necessário.

Vejo adolescentes que não sabem escrever uma palavra corretamente e, menos ainda, conseguem construir uma frase ou uma idéia. Por outro lado, vejo professores se dizendo alicerces da sociedade, promovendo longas greves por salários justos.

Vejo doentes morrendo em filas de hospitais públicos e outros tantos, mal atendidos por médicos incompetentes e drogados, em hospitais e clínicas particulares. Vejo estes mesmos médicos incompetentes serem defendidos a unhas e dentes por colegas de profissão e por sua associação, sem a mínima preocupação com o erro.

Vejo juristas parciais e insensatos, terem sua palavra tomada como verdade absoluta e incontestável.

Vejo advogados em conluio com marginais ou com comportamento nada exemplar, tudo "dentro da lei".

Vejo oficiais das forças armadas entregarem granadas e armamento pesado a facções criminosas.

Vejo que basta ter dinheiro ou um amigo no poder, para que as conseqüências por atos atrozes, sejam perdoados e esquecidos - mesmo que tragam prejuízo a uma pessoa, um grupo, um município, um estado ou um país.

Vejo carteiros deixando de entregar correspondência pra ficarem com o selo, vejo bombeiros entrarem em casas para apagar incêndio e saírem com objetos que não são de sua propriedade.

Vejo fiscais pedindo um trocadinho pra não cumprirem com sua função de fiscalizar e o fiscalizado pagar o trocadinho porque pensa ser mais inteligente persistir no erro.

Vejo policiais agirem eficientemente quando a vítima de alguma ação criminosa é "gente de nome" e poder e esses mesmos policiais serem o mais ineficientes quanto possível, quando a vítima é um cidadão sem nenhum poder ou patrimõnio.

Vejo políticos de palácios, assembléias, cãmaras e senados, mais preocupados com aumento de salários, benefícios e previlégios, tomando o lugar da policia com inúmeras formações de CPIs com o único objetivo de livrar a cara daquele que se comportou sem o menor decoro com o povo que representa.

Vejo padres e pastores evangélicos estuprarem crianças, roubarem suas ovelhas e terem como única unição, a transferência de igreja ou templo.

Tenho à frente de meus olhos, a prova de que estamos à deriva. Resta-me aguardar o grande motim para que o leme seja novamente guiado ao rumo certo.

Enquanto isso, mostramos o quê aos nossos filhos? O que devemos ensinar a eles? O que devemos esperar desse mundo?

Aloha! Namastê! Sawabona!

26 Maio 2006

A Internet

Nosso mundo é habitado por terráqueos. A Internet é um mundo virtual habitado por internautas. É fácil reconhecer um internauta nas ruas.

1º) Ele nunca pergunta seu endereço, quer saber do seu e-mail.
- Quer meu endereço?
- Não, me dá seu e-mail.

2º) Oferecer uma seqüência de 8 dígitos, sem a devida notificação prévia de que se trata do seu número de telefone, vai fazer o internauta entrar em parafuso tentando decifrar os insólitos mistérios daquele código numérico de 8 dígitos que você passou pra ele.
- Anota meu telefone pra me ligar mais tarde.
- Não, me dá sua ID do skype que te dou um toque assim que entrar no computador.

3º) Sempre tem uma identificação de telegrama virtual, a chamada "ID de mensageiro instantâneo". É um absurdo alguém não possuir uma ID dessas:
- Me passa sua ID do msn
- Não uso
- Você não tem MSN? Como faz para se comunicar com seus contatos?

4º) Eu disse contatos? Pois é, na Internet não existem amigos, existe a lista de contatos. Alguns até viram amigos, se tornam um "favorito" na lista de contatos.

Pode parecer confuso mas essas são algumas das lições que aprendemos nos primeiros minutos de Internet. Nem precisa fase de adaptação, o processo é automático. É bem simples. A sua amiga poderá lhe passar a seguinte dica até pelo telefone:

- Digita o endereço http-dois pontos-barra barra-alguma coisa-ponto com-ponto bê-erre. Vai no login, escolhe um nome de usuário e depois escolhe uma senha. Preeenche o formulário com seus dados e espera enviarem a mensagem de confirmação para seu e-mail. Do teu e-mail, você clica no link de confirmação e aguarda a resposta automática confirmando seus dados. É só isso, amiga. Não é facinho?

Você faz aquela cara de surpresa e solta um comentário padrão:
- Mas eu ainda não tenho e-mail.
A sua amiga provavelmente soltará algumas interjeições de espanto antes de finalmente recuperar a respiração e te perguntar em tom de acusação:
- Você não tem e-mail?!? Em que mundo você vive?
Meio sem graça, tente diminuir sua culpa respondendo simplesmente:
- Moro no terceiro planeta depois do Sol - a Terra. Conhece?

Não remoa pela memória escolar, suas aulas de geografia se ainda ouvir que "Terra não é um planeta, é um site de provedor de Internet". Não discuta. É inútil discutir com um internauta.

Aprendemos muito na Internet. Hardware e software são nossos primeiros passos no mundo virtual. Hardware são as peças que você compra para poder instalar o software. Software é o que diz pro seu computador o que ele deve fazer pra agradar você. Até que você sinta os possessos ataques da loucura, unificado com uma vontade quase obcessiva de atirar seu micro pela janela do septuagéssimo andar do Empire State, você não saberá o que é um software.

O hardware leva uma vantagem do software: ninguém precisa guardar o nome porque ninguém sabe exatamente para o que servem. Servem apenas para preencher o gabinete que o vendedor insistiu que você precisava adquirir para ter Internet. Você não sabe como, mas descobre que ele tem razão.

A Internet é cheia de vantagens. Nela não existem vizinhos. É um mundo perfeito! Tão perfeito que você pode visitar ao mesmo tempo, o Museu do Louvre, a Casa de Rui Barbosa e uma comunidade do Orkut.

Mas o que é uma comunidade do Orkut? É tudo que você imaginar. Numa comunidade as pessoas interagem, trocam idéias, marcam um almoço no seu restaurante preferido para se conhecerem melhor, batem papo e discutem sobre tudo.

Quer fazer marketing pessoal? É só participar da comunidade chamada "Eu sou Perfeita!". Precisa de uma companhia para aquecer a noite? Tem a "Disponivel no Mercado". Se você tem alguma cisma estranha, pode entrar na comunidade "Detesto Ruído de Pipoca" ou "Odeio Cara de Pastel". Tem comunidade para tudo que sua imaginação permitir: romanticas, explosivas, ardentes, informativas, patrióticas, conscientes, doentias, saudáveis, informativas, distintas, jovens, vulgares, políticas, esportivas...

Você pode conversar sobre tudo, desde a cor da sua roupa até o último ganhador do Prêmio Nobel. Quando entra numa comunidade, se torna uma ilha cercada de gente por todos os lados. A troca é riquíssima e exige mais do que nunca, o dom de saber ouvir. Opiniões contrárias às suas pipocam na Internet. Tem demonstrações de sentimentos, expressões faciais e posturas sociais que antes você não acreditava que pudessem existir.

Não se esqueçam que as comunidades são criadas e freqüentadas por pessoas, com seus defeitos e qualidades. Há o pacato, o cruel, o homem vestido de mulher, a mulher vestida de homem, o marginal, o homem de bem, o ético, o moralista e o mau caráter. Enquanto nas ruas estamos à mão da insegurança, no mundo virtual há regras e ações que te permitem navegar em total segurança. Você não depende da polícia para te proteger, você pode se proteger sozinha.

Perder sua senha equivale a dar a chave de sua casa ao ladrão. A moda agora é fazer clones, que nada mais é do que uma página pessoal sob o controle de outra pessoa. Algumas vezes, eles não conseguem a senha e tentam nos confundir montando uma página que é réplica fiel da sua. Não demoram muito a serem descobertos, mas até lá já nos provocaram alguns sustos.

Mundo real e virtual, convivendo lado-a-lado com as imperfeições humanas. Se por um lado, estas nos assustam; por outro, a Internet colabora muitas vezes mais com o desenvolvimento das relações humanas. Nunca foi tão fácil fazer amigos. E a amizade é o que torna mais rico, cada dia vivido.

Aloha! Namastê! Sawabona!

17 Maio 2006

Calma, Bete! Calma!

Estou terminando o meu segundo livro, por isso não tenho postado minhas famosas crônicas.
Assim que arrumar tudo, venho publicar os textos criados especialmente para este espaço.
Por enquanto, acompanhe as atualizações através do blog-cérebro Sêmem de Gargalo.

Aloha! Namastê! Sawabona!

16 Abril 2006

Domingo de Páscoa

Ainda não inventaram melhor maneira de passar o domingo de Páscoa do que na companhia de um bom livro.
Não dá pra sair porque é feriado familiar.
Ver tevê, que já é um saco em dias normais, torna-se impensável num domingo. Sendo um domingo de Páscoa, torna-se algo completamente intragável.
Penso que a Páscoa deveria ser um dia de festa feliz. Mas dá mais ibope focalizar a morte, não a ressurreição. Ficam parecendo mais sérios e responsáveis.
Fica o dia com cara de quem chegou atrasado ao funeral.
Na segunda-feira só ficam as lembranças dos chocolates, lembrança palpável de um dia nublado.
Os primeiros comentários no trabalho serão:
comeu muito chocolate? ou se acabou na bacalhoada? ou ainda ganhou muito chocolate?
Tem que inventar um meio mais eficiente de comemorar a Páscoa.

Aloha! Namastê! Sawabona!

11 Abril 2006

Eu e as Crônicas

Gosto de escrever Contos e Crônicas.
Aqui somos livres para criar e divagar sobre tudo.

Sirva-se de um cafezinho. Volto já!

Aloha! Namastê! Sawabona!